Estadia no Hawaii
antes... Christmas Island-Honolulu
Quem nos imaginou em Honolulu 12 dias, pensou certamente que estivemos numa praia pejados de grinaldas de flores enfiadas pelo pescoço rodeados de bonitas hawaianas, boas e perfumadas que dançavam lascivas à nossa volta abanando tudo que a mãe natureza lhes deu para o efeito, ao som daquela música cheia de zimmmmms e zommmms, quente e paradisíaca, enfim...o verdadeiro céu para dois aviadores que, esparvoados com tanta beleza e encanto nem sequer forças tinham para fechar os queixos, quanto mais voar nas sua máquinas voadoras para o continente Americano.

A realidade contudo foi bem diferente, infelizmente...
As tais hawaianas fardadas a preceito, nenhuma delas nos
apareceu, enquanto com os nervos em franja esperávamos que as nossas máquinas
saíssem das mãos daqueles afanosos mecânicos, prontas a voar por cima de 2100
milhas náuticas de água. Eu ainda tive sorte, pois descobriram no meu alternador
um malfadado intruso, espécie de gafanhoto que por ali se aninhou e causou um
curto circuito queimando-me um díodo. Retirado o animal, o alternador foi
reparado e passou a debitar a corrente que os livros mandam. Quanto ao Delfim,
por pouco não endoidecia, com o Piloto Automático e com o rádio HF. Vieram
peças, manuais e o Scott da Pacific Avionics, aplicou-se a fundo, sem obter
contudo da sua, perseverança, suor e lágrimas (se não chorou, fica-lhe mal, pois
devia tê-lo feito...) qualquer efeito prático. Depois de 50 horas de trabalho,
estava tudo avariado como dantes, não em Abrantes, mas ali mesmo em Honolulu.
De vez em quando telefonava para o Delfim e dizia-lhe : "
Finalmente o P/A está a trabalhar....".
À Delfim de um raio, a alegria era tanta que, as pontas do
bigode, poisadas aos cantos da boca, empertigavam-se como dois repetidores de
sinal da Telecel e abalava caminho do aeroporto, dizendo : " Parece que afinal o
P/A já trabalha...".
O desgraçado farto de pilotar com as "manitas" não sonhava
com outra coisa que, não fosse ver o CENTURY de luzes acesas, a trabalhar de
mangas arregaçadas levando-lhe a máquina de asas direitas e rumo certo até ao
destino.
Pouco tempo depois, encontrámo-nos no aeroporto, bastava
olhar para ele, acabrunhado e olhar triste, para adivinhar do insucesso.
"Vê lá tu que nem chegou a ligar....", ou "Ligou mas foi sol
de pouca dura, pois logo queimou dois transístores (será assim que se escreve
?!, se já escrevia mal, agora estou de todo...) e agora ainda está pior...".

Os dias prosseguiam iguais uns aos outros, ou não se
conseguiam reparar as avarias ou apareciam outras, uma aflição.
O vento continuava de frente em relação à nossa rota, impossível atravessar o
Pacífico nestas circunstâncias. Faltava-nos a nossa comida para nos aquecer a
alma e a "bicazinha" para nos dar alento. Já não nos podíamos ver um ao outro e
a moral andava mais baixa que os passeios nas ruas.
Mas um dia a coragem voltou e dissemos um outro: " Isto por
aqui está visto, logo que tivermos o vento feição arrancamos...".
De repente o
"...vento mudou e ela até voltou...".
VOLTOU A VONTADE DE VOAR. Incomensurável, imbatível e imparável.
Aquela terra não nos deixou saudades, não levamos por detrás
dos olhos as hawaianas a dançar, nem no olfacto a suave fragrância do cheiro das
flores, nem nos ouvidos a lembrança da música do Hawaii.
Valeu-nos a grande ajuda do Dr.William Tashima ( Earthrounder
com duas Volta ao Mundo) e a simpatia de Lilly, sua mulher que nos convidou para
jantar em sua casa, proporcinando-nos um "very nice evening".
António Faria e Mello